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Acabo de ganhar um sobrinho saudável e gracioso, que, em seu primeiro dia de vida, já foi capaz de sorrir e fazer rir. Observá-lo me fez pensar no milagre da vida, na magia da existência, na gostosa sensação que aquele nascimento, inexplicavelmente, proporcionou a mim e a meus familiares - sobretudo ao meu irmão, pai pela primeira vez, que esteve radiante como nunca antes eu havia visto em mais de 30 anos de convivência. Quem é pai deve entender do que falo, mesmo que eu ainda não o seja.
Passei a pensar nessa tal sensação mágica de conhecer o novo. Em níveis e com significados diferentes, ela também emana quando provamos um prato inédito, visitamos um lugar desconhecido, conhecemos uma pessoa admirável ou temos uma ideia que consideramos genial. Num ambiente "hip-hópico" como este portal, não posso deixar de comentar como é agradável ouvir uma boa canção de Rap pela primeira vez, assistir à performance improvisada de um DJ talentoso, fazer barulho para as rimas surpreendentes do MC que domina a roda de freestyle, ver um bom B.boy desconhecido pela primeira vez ou contemplar um novo e colorido graffiti que acoberta a paisagem que até ontem era cinzenta e depressiva.
Conhecer o Rap - e, mais tarde, a cultura Hip-Hop - foi uma experiência marcante na minha vida. De uma hora para outra, o Rap, que até então não existia na minha cabeça, invadiu o meu repertório cultural e passou a influenciar minha vida, mudando meus objetivos e meu modo de observar as coisas ao redor. Quando nasceu na minha mente, o Hip-Hop também me fez renascer. Sei que isso também aconteceu com muitas outras pessoas porque já conheci várias delas.
A cada grupo de Rap nacional que eu conheci, revivi a deliciosa sensação de conhecer o novo. Isso aconteceu, por exemplo, na primeira vez que ouvi Thaide & DJ Hum, MC Jack, Racionais MCs, Os Metralhas, GOG, Câmbio Negro, DMN, Filosofia de Rua, Doctor MCs, RPW, Posse Mente Zulu, RZO, Apocalipse 16, MV Bill, Sabotage, SNJ, Da Guedes, Kamau, SP Funk, Mzuri Sana e Emicida, entre inúmeros outros. Felizmente, continuo tendo novas surpresas de tempos em tempos.
Não consigo pensar em morte com tanta vida fervilhando ao meu redor, mesmo que a atuação de energias negativas venha atingindo proporções preocupantes. Não se trata de ignorar os problemas nem tentar tapar o sol com uma peneira. Penso que, se não celebrarmos a vida, não teremos como traçar perspectivas animadoras. O raciocínio é simples: plantando apenas energias negativas, nunca vamos colher positividade.
Espasmos de vida continuam e continuarão brotando por aí, perpetuando a teimosia de ser verdadeiro. A cada dia, talentosos DJs, MCs, B.boys e Grafiteiros nascem aqui e acolá. Talvez nunca saberão que têm esse talento ou não terão condições de investir nele. Mas o legado vive e esta convicção é alimento para a alma e estímulo para reflexão. Ela pode jogar apenas tímidas gotas de otimismo na maré alta do pessimismo, mas já é alguma coisa.
O caminho pode ser espinhoso, cheio de obstáculos e pessoas negativas ou mau humoradas. Mesmo assim, não podemos deixar de celebrar a vida, a espontaneidade, o direito de (re)nascer. Assim me inspirou meu recém-nascido sobrinho, entre bocejos, choros e mágicas horas de sono - silenciosas, mas que me "falaram" mais do que muitas palavras de adultos vividos. O Hip-Hop brazuca anda desorientado? Pode ser. Mas o pulso ainda pulsa.
PAZ a todos/as!
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