Foi assim, em 22 de setembro de 2002, numa noite como tantas outras, ele escreveu:
Duas
Ana tem dois anos, Larissa seis. As duas acordam cedo, a mais velha para ir à escola, a outra porque não quer ficar longe da mãe. Cada uma com seu código.
Ana, como qualquer criança da sua idade, reconhece as coisas, sabe o que cada uma significa. O espelho reflete os olhos de Larissa, seus olhos refletem sua cama, a cama com o lençol amassado insiste em avisar que o travesseiro está no chão, junto aos chinelos, que Ana sabe, deveriam estar nos pés da irmã.
O relógio lembra o seu pai, o homem sempre repete que estão atrasados. São quinze minutos que separam a irmã da escola e mais dez que separam o "pai-relógio" do ponto de ônibus.
Ana vê Larissa e o pai com suas mochilas nas costas, as mochilas se despedem, na boca da mãe um "vai com deus", nos passos apressados um "amém", tão previsíveis como o movimento que fazem para abrir e fechar o portão. Ana está do lado de dentro, o sol ainda não aquece, ela sente sono.
Entre sua casa e a escola existe um conjunto de prédios, a área nobre do bairro. Larissa também entende o que vê, os edifícios mostram seus nomes, dizem que são fortes e seguros, suas ruas largas que levam a estreitos caminhos indicam onde outra arquitetura está presente.
Uma pequena favela, um córrego e uma ponte que grita, confirma que a escola está próxima. As casas sem pintura, sussurram, Larissa quase não escuta, contam que quando seu pai tinha a sua idade, elas já estavam lá, bem antes dos edifícios que se exibem com seus porteiros, interfones, vigias e motoqueiros que lhe atiram jornais.
A favela também tem nome, tem sua própria música, sua religião, sua história, seus heróis. Códigos que a menina ainda não consegue decifrar, por enquanto ela se conforma, com a idéia da professora, presta atenção nas respostas que dá e aguarda o final da aula, onde o portão aberto mostrará sua mãe, o asfalto lavará a favela e seus estreitos becos vão apontar para os prédios... uma praça, sua casa, lição para fazer, amigos para brincar. Ana sorri para o dia, se admira e aprende com Larissa, que aprende com a vida, as diferenças que criaram para elas.
Hoje, 7 anos depois, os moradores da favela que ele descreveu já não moram mais no bairro. No local... existe outro conjunto de belos edifícios. Algumas coisas foram arrancadas do seu coração. Muita coisa muda ...por dentro e por fora...sempre assim. Antes duas...hoje três...amanhã...talvez.