Texto originalmente publicado no ano de 2003, no site Mood.com.br, com o título "Hip-Hop, uma cultura global". É um artigo de opinião, que mostra o entendimento e a compreensão dos acontecimentos da história, sob o meu ponto de vista.A Cultura Hip-Hop teve seus primeiros passos nos guetos de Nova York. Em especial no Bronx, bairro de maioria negra e considerado por muitos o berço dessa cultura. À época, o estilo musical predominante era o
Funk – o verdadeiro Funk, de
Parliament Funkadelic,
Earth, Wind & Fire,
Kool & The Gang,
The JBs e tantos outros - e a
Disco Music. Foi no final dos anos 70, início dos anos 80, que o Hip-Hop começou realmente a brotar e a conquistar espaços. Influenciado por um
DJ jamaicano chamado Kool Herc, que migrara para os Estados Unidos, um novo estilo musical seria criado.
A rapaziada adorava escutar e dançar o Funk, em especial as partes instrumentais das músicas, onde eles podiam cantar, arriscar algumas rimas. O que Kool Herc fazia era, utilizando-se de dois toca-discos e o mesmo disco em cada um deles, repetir ininterruptamente os trechos instrumentais das músicas, principalmente aqueles de beat pesado, ondeo cantor (original) não metia a voz. É mais ou menos como o que hoje chamamos de técnica
back to back.
A partir daí foi um pulinho para que muitos caras começassem a criar novas técnicas e novos sons. De tanto
back to back e risca, risca nos discos, a arte do
scratch (mexer o disco para frente e para trás, repetindo palavras e pequenas frases) ganhava as caixas de som. Ao mesmo tempo, os alemães do
Kraftwerk ganhavam notoriedade fazendo um som com beats eletrônicos; e um artista norte-americano chamado
Afrika Bambaataa, em meio a esse caldeirão sonoro que surgia, começou a misturar a música Funk com essas batidas sintéticas. Era o início da música Rap.
Alguns poucos anos se passaram para que grupos como
Grand Master Flash & The Furious Five,
Kool Mo Dee e tantos outros surgissem, e a música Rap começasse a ganhar seu espaço. Os outros elementos da cultura Hip-Hop – o Graffiti e a dança (conhecida através da mídia como
Break Dance)– já existiam, e foram impulsionados pelo novo ritmo que surgia ecrescia. Isto tudo na costa leste dos Estados Unidos; no outro extremo do país, notadamente na Califórnia, o Rap também florescia, com estilo e características próprias.
No início era tudo diversão. Os jovens da periferia, que tinham pouco acesso a entretenimento e cultura, passaram a criar bailes semanais e apresentações. Eram nesses eventos que todos se reuniam para dançar, cantar e curtir alguns momentos longe da sua dura realidade. Geralmente realizados em prédios ou casas abandonadas – com o famoso puxadinho de energia elétrica dos postes – jovens negros e latinos fortificavam lá o orgulho e a auto - estima tão agredidos no dia a dia. Já estávamos nos anos 80 e constituía-se ali verdadeiramente o Hip-Hop e seus quatro elementos básicos: a dança de rua (formada principalmente pelos estilos Popping, Loking, Rocking e B.Boying) o Graffiti, o DJ e o MC (Mestre de Cerimônias).
Mais alguns anos se passariam e o Rap começaria a modificar sua temática. De uma música que explorava em suas letras somente a diversão, por assim dizer, passou então a cantar a realidade das ruas, o dia a dia dos guetos. Era mesmo uma questão de tempo. O sofrimento com a discriminação e a violência, principalmente a proveniente da polícia, acha escape na cultura Hip-Hop. O Rap torna-se, então, o instrumento perfeito para a propagação de novas idéias e reivindicações. Já estamos no final dos anos 80 e o estilo iniciaria a sua grande explosão para o mundo. Era uma época difícil, de conflitos raciais. O grupo ativista chamado
Panteras Negras havia deixado um grande legado de luta e conquistas para o povo negro e menos favorecido durante os anos 70 e, após alguns anos de calmaria, era chegada a hora de uma nova proposta tentar mostrar o descontentamento com a situação vivida no país. Chegava a nova era do Rap, onde ele seria a voz da periferia. A luta pela liberdade de expressão, contra a discriminação racial e a favor da igualdade social iria pautar um novo estilo. Um estilo mais político, agressivo econtundente.
Centenas de grupos surgiram nesse período, mas apenas alguns conseguiram grande repercussão – e marcaram história. Um dos primeiros a fazer valer a liberdade de expressão e cantar a realidade dos guetos de Los Angeles foi
Tone Loc. Sua música
“I Love You MaryJane” alcançou os primeiros lugares nas paradas. O grupo
N.W.A (Niggaz With Attitude), também da Califórnia, causou furor em todo o país com a música
“Fuck The Police” (
"Foda-se a Polícia"). Junto com eles vieram Ice-T, Too Short, MC Eight, King Tee e tantos outros.
Na costa leste a coisa não foi diferente. Por lá tiveram origem os grupos de Rap de maior sucesso mundial num período um pouco anterior, como
Public Enemy,
Run DMC,
Beastie Boys e
Boogie Down Productions (encabeçado pelo MC KRS-One), entre outros. O Public Enemy – formado por Chuck D e Flavor Flav e DJ Terminator X – realizou um dos trabalhos de maior influência no mundo do Rap; através do som deles, de forte conteúdo político e social, muitas pessoas começaram a curtir o Hip-Hop e toda a sua cultura.
E o que acontecia no Brasil em todo esse período? O Hip-Hop iniciou-se mais ou menos um ou dois anos depois do nascimento nos EUA – mas uma hipótese bem provável é a de que já se dançava
Break e se improvisavam rimas pelas esquinas de São Paulo quase ao mesmo tempo. Lá, o local escolhido para as primeiras manifestações da cultura foi a
Estação São Bento, onde várias Gangues de Break e simpatizantes do Rap reuniam-se para trocar idéia, cantar e dançar. Era quase que um ritual. Entre eles estavam os precursores do gênero no Brasil, como Thaide & DJ Hum,
Nelson Triunfo, Mano Brown e DJ KL Jay (estes últimos, hoje integrantes do
Racionais MCs).
Porto Alegre, minha cidade natal, repetia o fenômeno, por meio da dança (o chamado
Break). Sem dúvida, os primeiros passos do Hip-Hop no país foram através da dança. Assim como em São Paulo, quando começaram a chegar os primeiros longas metragens sobre a cultura Hip-Hop nos cinemas (como o filme
"Beat Street"), milhares de jovens que já curtiam os bailes produzidos pelos grupos de som começaram a entender que faziam parte de algo muito maior. Tivemos durante muitos anos a
Ritmos de Baile, com grandes festas no bairro popular da Restinga, e o
Jara Musissom, que era comandada por Jair, Brother Neni e grande equipe. Como dizem Thaide & DJ Hum,
“que tempo bom que não volta nunca mais”. Os Hackers (hoje
Cia de Dança Hackers Crew), Spider Breakers e outras gangues de agitavam o centro da cidade, na
Break Dance Esquina Democrática, mostrando, com orgulho, aquela nova dança e estilo de vida que chegavam pra ficar. Porém, apesar da nostalgia, foi também uma época muito difícil. A polícia batia forte e repreendia qualquer manifestação diferente. Só sabe como era quem esteve lá. Mesmo assim, muitos grafiteiros passavam (e ainda passam) suas mensagens positivas e protestos nas paredes, com muitas cores e arte (ressalva: grafitagem não é pichação). Interessante notar que, naquela época, os jovens que iniciavam no Hip-Hop procuravam aprender um pouco de cada um dos elementos. Dançavam Break, faziam Graffiti, arriscavam (ou riscavam) nos toca-discos e também faziam rimas – claro, com mais ênfase naquilo que sabiam fazer melhor, mas sem deixar de buscar os outros elementos. Infelizmente hoje isso acontece com raridade...
E atualmente? Você já percebeu como as
“baladas Black” andam se proliferando em sua cidade? Parte desse fenômeno pode ser justificado com a procura de valores morais e sociais. Os jovens já não encontram mais na sociedade e em suas próprias famílias os valores que procuram para as suas vidas. Essa explicação enquadra-se naqueles que, curtindo o estilo musical (Rap), passam a ser ativos na cultura (Hip-Hop) de alguma forma.
Porém, ao mesmo tempo, assistimos ao despertar de um novo modismo. Um modismo passageiro, para aqueles que não procuram compreender mais profundamente a cultura, e um eterno para aqueles que descobrem no Hip-Hop a possibilidade de realizar mudanças positivas. A explosão é visível, e não é só da música Rap; o que vem ocorrendo em quase todo o mundo é um movimento de resgate gradual da música negra, desde a Disco Music até o Rap, passando pelo Funk. Podemos visualizar, como agentes desse processo, muitos famosos artistas da música internacional, pertencentes aos mais diferentes estilos musicais, e,também, o progresso da tecnologia que envolve todas as etapas da produção musical. Em meio a todo este complexo esquema envolvendo o mercado fonográfico e tendências de estilo musical, podemos também ressaltar outro fator que também leva os jovens a se identificar com a cultura Hip-Hop: o estilo de vestir. Calças largas, tênis de alta tecnologia e visual futurista. Acessórios dos mais variados, desde brincos, anéis, correntes, relógios de ouro cravejados de diamantes, piercings, até bonés, bermudões, bandanas, etc. O estilo chamado de
street fashion está engordando a fortuna de empresas como Nike, Adidas, Reebok, Tommy Hilfiger, Fubu e outras muitas marcas direcionadas (ou mesmo criadas) para esse novo segmento.
Muitos famosos rappers e grupos de Rap norte-americanos lucram milhões criando sua própria linha de roupas, como Puff Diddy, Wu Tang Clan, Jay-Z e muitos outros. Até boneco de brinquedo (estilo
G.I. Joe) fizeram de Snoop Doggy Dogg. KRS-One, um dos mais respeitados MCs americanos, identifica a moda como um dos novos elementos do Hip-Hop, assim como a linguagem de rua. O estilo já dominou a cena lá fora: Estados Unidos, França, Japão, Canadá e até mesmo o Chile são países onde o mercado Rap/Hip-Hop encontrou um ambiente cultural e economicamente mais propício. Nesses países, grandes eventos envolvendo a cultura Hip-Hop são patrocinado por multinacionais como Pioneer, Technics, Sony, Mc Donalds, Coca-Cola e etc – além das empresas da área esportiva, já citadas. Aqui no Brasil, estamos no mesmo caminho – porém o custo devida e a economia nos deixa longe, pelo menos por agora, desse maremoto mercadológico.
Ou seja: percebemos que existe, grosseiramente falando, duas formas do jovem adentrar a cultura Hip-Hop: pelo meio da modinha, divertida e passageira, ou por uma busca de entretenimento e valores para a vida, que certamente o levará a conhecer e apaixonar-se pela cultura – independente do fato de gostar ou não de escutar Rap.
As tendências para os próximos anos
(lembrando que esse artigo foi escrito em 2003) apontam um grande crescimento do Rap chamado
underground ou
alternativo, principalmente nos Estados Unidos e em países onde a cultura já está consolidada. É a procura de alternativas fora do
mainstream, estagnado, e isso está impulsionando bandas que antes se encontravam na obscuridade. Uma procura principalmente por novas idéias e novos estilos, representando uma retomada das raízes da música Rap, já tão explorada pelo mercado fonográfico e distorcida em seus ideais originais. E, finalmente, aqui no Brasil o cenário é o melhor possível, já que há muito o que amadurecer, crescer e conquistar. O Rap vem dando os seus primeiros passos firmes, com o início da abertura do mercado e o surgimento de bons produtores musicais e DJs. A cultura tende aganhar mais espaços, valorização e projeção. O próprio governo federal já demonstrou interesse em apoiar e subsidiar eventos pelo país. É esperar para ver...
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Hoje, chegamos a 2009, iniciando 2010, e que panorama temos? Desde 2003, ano em que esse artigo foi escrito, o que se confirmou, o que mudou, o que não foi nem parecido com o esperado? Deixe a sua opinião! O debate está aberto para que possamos avaliar um pouco como o nosso Hip-Hop evoluiu.