Bocada - Forte ::: Reportagens
Fora de Órbita Hip-Hop
Data: 05/06/2004
Por: Nelson Maca (Blackitude)
Numa de suas crônicas sobre um contagiante Fla-Flu, Nelson Rodrigues disse que “quem não foi ao Maracanã naquele dia não viveu”. Gostaria de imitá-lo e dizer que os amantes do Hip-Hop de Salvador e adjacências que não foram ao Fora de órbita Hip-Hop não viveram. Antes do começo efetivo da festa, a empolgação tomava conta dos que se aglomeravam em frente à “Pop Dance” na Rua Carlos Gomes. Pode crer, o nome da rua homenageia o maestro. E mais: fica a 50 metros da famosa Praça Castro Alves. Só que o concerto do dia ficou por conta de alguns clássicos dos toca-discos. Só que a real poesia dos negros não vinha da “casa grande”, mas da academia das ruas da Bahia. A verdade é uma só: a Bahia é Hip-Hop. A coisa chegou por aqui e fundiu-se às nossas potencialidades, dando uma identidade própria ao nosso DJ, Rap, Break e Grafite.
"Fora de órbita Hip-Hop" foi a festa que lançou os CDs dos grupos Testemunhaz e Afrogueto. Aconteceu em pleno dia das mães (2004). No programa constou ainda os grupos de Rap Quilombolas, Elemento X e O quadro; e os grafiteiro Neuro e Sisma. Também contou com uma pá de B.Boys, tendo, como sempre, o comando e a empolgação de Lee. Antes de tudo, Edbrás (Zambotronic) e Chiba D rodaram as bolachas no ritmo black total. O complemento ficou por conta do sempre garantido Freestyle e outros recitais. No mais, é destacar a condução da festa por Negojuno (Quilombo Vivo), expressão inconfundível do afro-Hip-Hop.
O Fora de órbita Hip-Hop não ficou devendo nada. E o mais importante: casa cheia! Rangel (Bocada Forte - Testemunhaz), Fábio (Quilombo Cecília) e Alan (Testemunhaz) deram mais uma amostra prática da competência dos ativistas locais, para a gerência desta coisa contagiante chamada Cultura Hip-Hop. Não só atuaram no palco, como organizaram o evento com a competência de quem sabe onde moram os cobras - e as cobras. É a experiência de quem se graduou na universidade da rua e não aceita tratar sua Cultura como moda ou atitude inocente. Eles estão levando a coisa a sério, pois já perceberam que só nós podemos nos comprometer profissionalmente com nós mesmos. Principalmente agora, pois já estão aparecendo os oportunistas – locais e de fora, querendo colher a semente que o movimento plantou. Como sempre, atraídos pelos cifrões que já cheiram no ar.
Escolha precisa das atrações, a seqüência musical da festa contagiou. Quem abriu a noite foi o grupo Quilombolas, que tem na africanidade e na crítica social uma marca inconfundível. Convidado especial da cidade de Ilhéus, subiu para Salvador e para a cabeça dos presentes o inacreditável O quadro. Underground sem falsificações, O quadro já conta com material na rua e platéia cativa na capital. Com formação composta por DJ e banda, o grupo é antenadíssimo com as mais variadas culturas musicais, principalmente a soul music, gringa e local. Com groove inabalável, rimam com versos desconcertantes, nas imagens e no domínio do verbo. Testemunhaz, anfitrião da festa, também com DJ e banda, não deixou cair a empolgação d’O quadro, mostrando o repertório de seu primeiro CD. Foi emocionante assistir à apresentação do Testemunhaz, sabendo que ali estavam as pessoas que conseguiram aliar o trabalho musical ao de produção do evento com tanto equilíbrio, e que têm moral para reunir muita gente boa da cena local, além de caras nunca ou pouco vistas em tais ocasiões: gringos, adeptos da música eletrônica, roqueiros, etc. Meu maior respeito aos caras! Respect man!! Êa Rangel! Êa Mendigo! Êa Alan!!
Mas a noite ainda guardava muito gás! Cena comum na cidade, um público ergueu os braços cruzados em X em deferência, respeito e admiração ao Elemento X. E não deu outra: o grupo apavorou, dando uma palha de trabalhos que farão parte do seu esperado novo CD. O público ainda pedia um bis ao Elemento X quando subiu ao palco a última atração da noite. Quebrando a lógica da maresia que bate ao final de eventos longos, o Afrogueto, outro anfitrião da noite, quebrou tudo. Um hit atrás do outro, dono de um público fiel, botou toda a platéia pra cima total. É o grupo baiano que chegou a uma fórmula eficaz de rimar o dia-a-dia dos becos e vielas da cidade. Som das quebradas do mundaréu, a Afrogueto prega a liberdade do indivíduo ser o que é mesmo que não agrade os puristas. E não tem jeito: o bairro de São Caetano é o principal cenário de seus rolés afro-poético-gueto-musicais. E também o público e os improvisadores de São Caetano tem merecido destaque especial em Salvador. O Afrogueto teve a incumbência de encerrar um evento que, mântrico como estava, poderia durar dias de êxtase.
Vida longa ao Testemunhaz e ao Afrogueto, que lançaram seus CDs. Respectivamente: A vida nos ensina e Exijo respeito. Duas produções que muito têm a nos ensinar com sua poética e merecem todo nosso respeito pela sua cuidada produção e visível talento. São flechas redentoras de Oxóssi no peito daqueles irmãos que ainda não enxergam sua conflituosa condição pós-colonial. Por outro lado, são um forte abraço naqueles que plugam sua consciência nas nossas coisas e não desprendem o olhar da positividade que representa nossa reunião neste imenso quintal de nossa aldeia.
Não tenho dúvida que algumas mães daqui ficaram tristes ao ver os filhos saindo para outra balada. Afinal, era o seu dia. Mas a mãe África, com certeza, gostou de ver-nos re-unidos, celebrando a fonte inesgotável de beleza, sabedoria e resistência que nos legou. A festa Fora de órbita Hip-Hop celebrou nós mesmos. Agora, é dar muita moral para os irmãos Rangel, Alan e Fábio (Mendigo). Agora, é continuar comemorando a primeira, mas também incentivá-los e colaborar para a gestação da segunda edição.
A tempo: penso que estar fora de órbita é estar livre de um núcleo único e central, articulado fora de nós e da nossa gente. Mas, também, é dar vazão a outras órbitas, onde só nos interessa ocupar, também, o centro. Nossa aldeia nos torna universal.
One Love!
Por:
Bocada Forte
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