Formado por vários ex-integrantes do antigo Quinto Andar, o
Subsolo lançou seu álbum no fim de 2008, para aclamação quase unânime entre os fãs. Concebido a partir de circunstâncias bem diferentes - os integrantes ficaram um mês trancados em um sítio para gravar o projeto -
"Ordem de Despejo" traz os sonhos, angústias e ideais de
Gato Congelado,
Kamau,
Lumbriga,
DJ Mako,
Matéria-Prima,
Pai Lua,
Shawlin e
Xará.
Nesta entrevista, o
Bocada Forte conversou com Shaw e Lumbriga sobre o processo de gravação, a motivação por trás do grupo, a transição entre Quinto Andar e Subsolo, além dos próximos projetos – eles avisam que não haverá outro disco do Subsolo. Confira.
Bocada Forte (BF): O que motivou vocês a se reunirem novamente, quase cinco anos após o Piratão?Shawlin: No processo de gravação do Piratão a gente tava querendo chamar os integrantes de fora pra fazer uma participação, porque não tinha como reunir todo mundo para gravar o álbum. Mas as circunstâncias da época impossibilitaram essa ponte. Assim, logo após sair o Piratão nós já tínhamos a idéia de agilizar outro álbum com quem não participou do primeiro álbum. Porém, no meio do caminho, o Quinto Andar acabou por causa de algumas divergências entre o grupo.
Nisso, já tinha essa proposta do outro álbum para rolar. Então o Lumbriga falou pra juntar todo mundo, em vez de ser só aqueles que tinham ficado de fora do primeiro disco, e fazer algo mais pesado. Mesmo com o fim do Quinto, eu já tava fazendo as bases, a galera já sabia do esquema, já tava tudo rolando. Então a gente simplesmente deu continuidade ao projeto, só teve o trabalho de pensar em um nome. As bases, as letras, nós já tínhamos tudo pronto. A gente demorou uns três anos pra mixar, saber se eram aquelas músicas mesmo que iam entrar.
Lumbriga: Eu sempre achei que um disco do Quinto tinha que contar com a participação igual de todos os integrantes, ou o mais próximo que se pudesse chegar disso. Por isso, não participei do Piratão. Queria fazer um disco com todos e só foi possível finalizá-lo agora, não mais com o nome do Quinto Andar, nem com dois dos integrantes, mas ainda assim com todos os que permaneceram unidos.
BF: Como foi o processo de gravação, ter juntado todo mundo em um sítio durante um mês?Shawlin: Justamente pelo fato de o pessoal querer que todo mundo participasse igualmente, ficaria complicado ficar aprontando o álbum mandando base um pro outro, se comunicar dessa forma. Aí, o Lumbriga falou sobre o sítio da família dele, sugeriu que a gente levasse o equipamento pra lá, as bases, definisse os temas e tal. Então ele foi agilizando tudo para que todos pudessem ir juntos, na mesma data. Levamos nosso equipamento, MPC, caixa, microfone. Fizemos um estúdio lá. A gente fez a acústica toda com colchão e edredom na parede, para dar um mínimo de tratamento na hora de gravar.
O processo foi democrático. Cada um ouviu as bases, falou qual delas gostaria de rimar, e assim decidimos quem ia cantar em qual base, e depois entrar em acordo com os temas.
Lumbriga: Foi ferrenho. A gente sem grana, com uma vontade monstra de fazer a parada. Vários caras no sítio, mano, mó família, mó união! Uma energia que eu nunca tinha visto antes e nem pensava existir. Levamos todo o equipamento necessário. Os que precisavam vir a São Paulo vinham, depois voltavam, e assim foi até termos uns 80% do disco, que foi o que fizemos no sítio. O restante gravamos na minha casa, outra no Flautin, outra na casa do Iky.
BF: O fato de vocês terem ficado juntos durante um mês, num clima bem família, influenciou o som de vocês? Essa união se faz transparecer no som?Shawlin: Ah, com certeza. Nós não sabíamos exatamente no que essa reunião daria. Terminou algo que a gente nunca imaginava que era o Quinto, mas a maioria da galera já se conhecia, não tinha problemas. Foi maneiro porque era aquele clima de reunião, todo mundo junto, com o mesmo nível de comprometimento. A gente ainda estava meio ressentido com o fim do coletivo, mas ao mesmo tempo feliz por nosso sonho não ter morrido. Acho que foi isso que transpareceu, porque é um álbum esperançoso, a gente pôde viajar bastante nos temas, sem se apegar a nada que já tínhamos feito. Por isso que tem música falando de futuro, os temas são mais pesados. A gente gosta mesmo é de som sujo, sabe? A gente gosta de Madlib, de coisas que não têm nada de convencional.
A gente não sabe nem como vender isso pra mídia, ta ligado? Então pensamos em lançar assim mesmo, do jeito que a gente quer, sem se preocupar com nada, nem ninguém. Se a gente tiver feliz, então essa é a parada. A gente sabia que tinha vários caras iguais a nós que iam gostar da sonoridade, e a resposta ta sendo bastante positiva.
BF: O que o Subsolo traz como resquício do Quinto Andar, apesar da mudança de nome e proposta?Shawlin: A gente traz, sim, coisas do Quinto. Além do número de integrantes, tem a proposta de fazer a música do nosso gosto, sem se preocupar com as tendências do mercado. O que a gente traz é o fato de não representarmos o estereótipo do rap, não somos gangstas, nem comerciais. Porém, nós temos princípios e valores, que nós queremos mostrar no nosso som. O principal que fica do Quinto Andar é a idéia da amizade, o conceito de que todas as idéias têm de bater, todos têm de estar no mesmo caminho. E nesse ponto eu acho que a gente ta sendo mais bem sucedido do que no nosso antigo trabalho.
BF: O Quinto era a favor da pirataria. E o Subsolo?Shawlin: Ah, o Subsolo é a favor da pirataria, desde que não seja o nosso (risos). A gente continua achando que a boa é a divulgação pela internet, mas é preciso ter consciência. Nós não somos artistas que vendem mais de 60 mil cópias. O dinheiro sai do nosso bolso, não tem uma gravadora que coloque o CD a 20 reais. Então, por que você vai baixar este álbum se você ta vendo que não tem por trás financiando a parada? Porque são os integrantes que tiraram do próprio bolso, que compraram os equipamentos, porque não havia dinheiro para pagar o estúdio.
É uma questão de dar uma moral. Não tem problema em passar pro seu amigo, caso ele queira ouvir. Agora, colocar o link do álbum inteiro, com encarte, letra, crédito no Orkut é complicado. Desse jeito, como nós vamos pegar nosso investimento de volta? Se for assim, eu fico no meu emprego mesmo, porque ele sim me paga.
Lumbriga: Se você perguntar isso a outro integrante, ele pode responder uma coisa totalmente diferente. Eu sou muito a favor da pirataria que destrói essas grandes gravadoras, que vendem discos a R$ 30,00 e R$ 40,00, e não chega nem R$ 5,00 na mão do artista. Sinceramente, quero que eles se fodam, que venham a baixo!
Mas acho uma grande merda alguém piratear o nosso disco, por exemplo, que tem um dos trabalhos gráficos mais bonitos que já vi e custa R$ 10,00, além de enviarmos para todo o país. Se os CDs custassem esse preço, eu aposto que nem haveria pirataria. Quem baixa o nosso não paga nada, mas ainda assim sai perdendo muito.
BF: Falando sobre as músicas do álbum, “Rio Babilônia” tem uma levada bem puxada para o funk carioca. No rap mesmo ainda há certo preconceito com o funk. Como vocês vêem isso? Qual o motivo para ter colocado uma música do tipo no álbum?Shawlin: O Subsolo tem um pouco da raiz dele aqui no Rio de Janeiro. Eu sou carioca, o Pai Lua e o Xará também. O Xará é de Campinho, perto de Madureira, ou seja, não tem jeito (risos). Nós curtimos funk há muito tempo, mas o que gostamos de fazer mesmo é rap. E se for parar para analisar, não é um funk puro, tem o tamborzão, mas também tem um sample por cima e tudo.
Lumbriga: Primeiro, eu quero que o preconceito se foda! O funk é a batida mais sexual que eu já ouvi, a batida por si só tem uns elementos que remetem ao sexo, que fazem os quadris se mexerem. E isso para mim é bom, não precisa nem de letra de putaria, só de ouvir um tamborzão causa uma reação de dança, entende?
Por fim, o Shaw fez a base, o Tapechu falou sobre como adequá-la para a idéia dele. A música era muito diferente. Quando ficou pronta, entrou, não por ter algo a ver com o que eu disse acima, mas por mostrar como a gente pode fazer o que quiser, com o que quiser, e fazer ficar bom.
BF: A mudança no som e na temática foi algo proposital ou surgiu naturalmente?Shawlin: Nós não pensamos especificamente numa sonoridade para o álbum. Mas nós já vínhamos fazendo coisas mais pesadas ultimamente. Já sabíamos que queríamos fazer uma parada mais pesada mesmo, não ia ser nada alegre, era algo que já tínhamos em mente.
O que ocorre é que as coisas que nós gostamos de samplear são nessa levada, são mais antigas. Às vezes elas são melancólicas, outras são sombrias. Nós não planejamos a sonoridade, mas, à medida que a gente foi fazendo, a gente foi vendo que seria nesse nível de iluminação mesmo (risos).
Lumbriga: O nosso som tem muito a ver com as nossas necessidades, com as coisas que passamos e sentimos, portanto é bem natural. Não fomos nós que dirigimos a produção para esse lado. Nós deixamos o disco correr por si só e foi ele que seguiu seu caminho. Eu e o Gato Congelado sempre fomos mais sujos. Quando chegou nossa vez de fazer a diferença, foi isso que aconteceu: peso!
BF: A faixa “Ninguém Ama os Náufragos” tem uma história bem interessante. Houve alguma motivação ou inspiração especial por trás dela?Shawlin: Quando vi que a base era bem sombria, eu pensei em fazer algo diferente do que a gente tá acostumado a fazer, contar uma história. Eu sugeri que a gente falasse sobre algo diferente, sobre a morte, especificamente sobre a morte de um personagem. Então eu, o Lumbriga e o Matéria começamos a combinar, falar sobre aquele momento em que dizem que, quando você está morrendo, você vê sua vida passar pelos seus olhos. A gente queria pegar este momento derradeiro em especial. Então nós fomos criando a vida do personagem. O que aconteceu em cada época da vida dele, para um não contradizer o outro durante a faixa. A gente queria fazer um tema diferente do que fazíamos, contar de uma forma diferente. Queríamos criar uma história com começo, meio e fim.
Esta música foi levemente baseada em um livro muito bom, que tem o mesmo nome da faixa, escrito pelo Mário Pontes. O livro em si tem pouco a ver com o tema da música – ele fala sobre um cara que sente abandonado, numa cidadezinha do interior, esse cara é bem na dele, cuida da vida dele (trabalha fazendo poções farmacêuticas no fundo da loja). Já o nosso personagem não tinha mulher, não tinha filhos, tinha feito coisas erradas na vida. Aí eu dei a idéia do livro para o nome da faixa, e o pessoal gostou, achou o nome do livro muito bonito e daria a dimensão poética que queríamos pra música, mas esse é o nosso Náufrago. Outro livro que me inspirou a sugerir o tema foi “Nosso Lar – Pelo espírito de André Luiz” escrito pelo Francisco Cândido Xavier.
Lumbriga: Se eu não me engano, essa foi a primeira faixa a ser feita no sítio. O Shaw fez o primeiro verso dele, em seguida eu acabei o meu, depois o Matéria acabou o dele, e assim foi até o fim da música. Acho que cada um em particular colocou no papel alguns medos, algumas verdades e muita imaginação.
BF: No show do grupo no Indie teve uma interpretação na execução da música. Como surgiu essa idéia, como foi a preparação para colocá-la em prática?Shawlin: A princípio, nada garantia que as pessoas entenderiam a história, até porque seria a nossa música de abertura, então queríamos deixar logo uma impressão bacana. Então pensamos, e se colocássemos alguém para fazer o papel do velhinho no palco? Então o DJ Mako tinha um amigo diretor de teatro, e outro que, se não era ator, pelo menos era cara de pau o suficiente para fazer a parada. Nós demos a idéia e o Mako, os dois amigos dele e o Lumbriga ensaiaram tudo. Eu mesmo só vi o resultado no dia do show.
Lumbriga: A música pedia muito isso, uma cena, algo visual. Nós falamos com uns amigos do Mako – o Chinês, o Cabelo e o André, se não me engano -, uns caras de cenografia e teatro. O Mako conseguiu alguns dos objetos de cena, a Carla, outros, enquanto isso eles ficaram ensaiando, sem vermos nada. Na sexta-feira antes do show, fomos lá, e acabou que mudamos algumas coisas em cima da hora.
BF: Além do livro do Mário Pontes, vocês também têm uma música chamada “Ensaio sobre a cegueira”. Houve outras obras que influenciaram vocês durante o processo de gravação?Shawlin: Teve sim. Em “Papo de Futuro”, por exemplo, o meu verso é inspirado no Blade Runner, misturado com um pouco de Animatrix, naquele episódio do Segundo Renascer. Mas teve muitas outras referências. Era um monte de maluco num sítio, bebendo, fumando, ouvindo música, a gente acaba trocando idéias, lembra de filmes, comenta sobre livros etc.
Lumbriga: Eu li o tempo todo em que a gente tava gravando, a “Destruir”, por exemplo, eu escrevi em cima de um texto do Baltasar Gracián, um jesuíta espanhol. O disco todo é resultado do que lemos, vemos, ouvimos e vivemos.
BF: E musicalmente? No release, vocês falam sobre atingir o mesmo nível de qualidade dos seus ídolos gringos...Shawlin: É, mas essa é uma questão de você colocar o nosso álbum pra ouvir e saber que tem tanta qualidade pra ouvir, tanto na forma em que o rap é executado quanto na produção das bases, na mixagem e na masterização, ta no mesmo nível dos gringos, mas com a realidade do Brasil e cantando em português. Esta é a idéia de estar no mesmo nível de qualidade deles. Porque a gente quer ser tão bom quanto eles. Por exemplo, eu me amarro no Talib Kweli, mas, se eu puder, eu vou ser melhor que ele, ele que se prepare! (risos)
Esteticamente, não tivemos nenhuma influência. A gente queria justamente fazer a nossa parada, para que ninguém nos acusasse de copiar alguém. Não, essa é a nossa parada, vamos pensar fora da caixa, para fazer algo que ninguém tenha feito. Há por aí quem diga que a gente não inovou em nada, outros que a gente inovou em tudo. Eu acho que a gente fez o que a gente quis. Eu poderia fazer rap com forró, estaria inovando, mas não estaria feliz, sabe? A gente procurou fazer o melhor que a gente podia pras pessoas ouvirem e pensarem que é tão bom nos ouvir quanto ouvir, por exemplo, BlackStar. Se a gente conseguiu ou não, as pessoas têm que ter bom senso, saber que eles estão há muito mais tempo, têm muito mais estrutura.
BF: As letras do álbum não têm palavrões. Isso foi algo proposital ou aconteceu por acaso?Shawlin: Bom, eu não tinha reparado nisso, mas realmente não me lembro de nenhum palavrão. Acho que foi totalmente sem querer, mas na próxima prensagem nós vamos inserir digitalmente alguns palavrões (risos).
Lumbriga: Até tem um ou outro, é que passam despercebidos no meio das letras. Mas é inconsciente, cara, eu falo muito palavrão, e o Shaw não é muito diferente (risos).
XII- Mesmo tendo sido por acaso, vocês acham que o fato de não haver palavrões reflete uma maturidade do grupo?Shawlin: Na verdade, acho que a gente estava tão preocupado nos temas e como íamos desenvolvê-los, que a gente nem se preocupou com isso. Talvez isso tenha tirado o nosso tempo para ficar botando bronca nos outros, se preocupar mais com a “marra” do rap.
Lumbriga: Isso que você disse tem muito a ver, eu é que nunca tinha parado para pensar nisso.
XIII- Qual a proposta do Subsolo? Como o grupo se posiciona dentro da cena atual do rap nacional, o que vocês procuram trazer de novo?Shawlin: Acho que a principal proposta do Subsolo é fazer as pessoas viajarem, conhecerem lugares novos, esquecerem dos próprios problemas. A gente não ta pensando em pegar uma coisa que todo mundo já conhece e dizer que ta inovando. A viagem do Subsolo é algo mais literário, não é tanto sobre cotidiano de rua. Nós pegamos nossas experiências e colocamos para as pessoas de uma forma mais poética, sem esse compromisso tão firme com a realidade. A única coisa que importa para gente é nós estarmos sendo reais no que estamos fazendo. Se eu faria isso que to cantando, então isso é real para mim, seja ficção ou realidade. Até porque as coisas que a gente canta podem acontecer com qualquer um.
Lumbriga: A gente quer fazer música boa, mano, só isso. O rap como um todo é ruim demais, e o que tentamos fazer a sua pergunta já responde: algo novo! Nossa vida está em constante mutação, e nossa música não é diferente.
XIV- Vocês falaram sobre este ser o primeiro e último álbum do grupo. Por que esta decisão? Há alguma possibilidade de, no futuro, vocês se reunirem de novo, ou só alguns dos integrantes?Shawlin: A gente vai sempre se reunir, cara. Independente de estarmos trabalhando junto, nós somos amigos. A decisão deste trabalho não ter continuidade se deve ao fato de o nosso propósito já ter sido preenchido, o que a gente queria, já conseguimos colocar neste álbum. Pode ser que futuramente aconteça algo, mas eu não contaria com isso. Isso não quer dizer também que acabamos como o Subsolo.
Pode ser que daqui a uns cinco anos a gente resolva fazer outro álbum, mas não temos nenhuma pretensão em fazer do Subsolo um grupo, lançar trabalhos regularmente, assim como não temos pretensão em fazer shows. A gente tem o nosso preço, que é meio difícil de pagarem, mas tudo bem.
O que a gente queria mesmo era estar junto num lugar, fazendo música, escolhendo as bases que tenham a ver conosco, aproveitando a nossa experiência e evolução. Então é aquilo: a gente queria fazer uma parada, conseguiu fazer, estamos felizes e satisfeitos. Não tem por que especular sobre outro álbum. O que a gente queria está aí: um álbum com uma capa maneira, todo mixado por mim, mais ou menos masterizado por mim, devido ao fato de ser minha primeira masterização (risos), num estúdio ninja onde eu trabalho, que se chama Visom Digital, e no fim com as músicas que todos os integrantes queriam.
Lumbriga: Pensa em um disco com sete emcees, alguém já fez isso aqui? Todos me falavam que era impossível, inviável, etc. E quase é, exceto pelo “quase”. Muitas vezes pensamos em abandonar esse projeto, mas quando eu pensava no que seria quando estivesse pronto, buscava forças no fundo do poço para continuar fazendo. Eu trabalhei nesse projeto por três anos, e a vida de alguém tinha que estar focada nisso, e foi a minha.
Não temos um grupo com integrantes em três estados diferentes para fazer gracinha. Esses são os melhores caras que já vi fazendo isso, e por isso vou com eles até o final. Acredito muito no potencial de cada um aqui, mas todos juntos temos uma força que nem nós sabemos o tamanho.
Enfim, eu não penso em fazer um segundo disco do Subsolo, porque já sei o que é preciso para fazer um disco assim, e não estou disposto a passar por isso tudo de novo (risos). E acho muito difícil algum dos integrantes chamar essa responsabilidade. São muitos integrantes, é muito difícil articular isso com a nossa condição financeira, não só para gravação do disco, mas para shows também. Nossa proposta é fazer música atemporal, algo que não passe com o tempo, e aí está. Antes de querer outro álbum, vamos absorver tudo o que esse tem a oferecer!
BF: Quais os próximos projetos dos integrantes do grupo?Shawlin: Bom, eu tenho o projeto de lançar meu último álbum solo, porque já to de saco cheio da cena do rap. É muita aporrinhação, muito estresse, muita gente falando merda, sem saber da sua vida, sabe? É por causa dessas coisas que eu fico meio cansado. Talvez eu passe a fazer rap só pros meus amigos, prensar dez cópias só (risos). Eu sou um cara que escreve letra até sem querer, de vez em quando.
Lumbriga: Eu comecei um disco com o Gato Congelado, para o fim de 2009. Acho que o caminho é cada integrante fazer o seu solo. O Kamau já tem, o Shaw talvez faça outro, o Matéria ta correndo atrás do dele, o Xará tem o projeto Luz Baixa, acho que o Pai Lua ta correndo atrás do disco dele também. E eu quero colocar bases em todos eles.
Enfim, estamos todos juntos, focados cada um em seu projeto próprio no momento. Vamos fazer os shows que forem possíveis com o Subsolo, que é o que vai abrir o caminho em que vamos passar.
BF: Ter conseguido reunir todo mundo num só lugar por um mês foi algo notório. Quem foi o responsável por manter o foco de todos durante todo esse tempo? Se o Subsolo fosse um time, quem seria o técnico?Shawlin: Quem agilizou para tudo acontecer, o pessoal ir pro sítio na mesma época e tal, foi o Lumbriga. Mas quem fez o planejamento, puxar a parte de produção, ficar dando idéia, arredondando as quinas, fui eu. Eu arredondei as quinas e o Lumbriga fez acontecer, porque ele tem a disposição pra conversar com as pessoas e chegar a um consenso. Tipo, eu e Lumbriga fomos o núcleo da parada. O que a gente fez foi cuidar para que a parte artística dos outros integrantes acontecesse sem ser atrapalhada pela parte burocrática. O resto da galera chegou lá, escolheu a base, escreveu letra, gravou.
Lumbriga: Foi muito legal,sim. O sítio é da minha irmã e do meu cunhado, eles também ajudaram muito. Não gosto desse termo, “técnico”, se não seríamos mesmo um time. O foco, como disse anteriormente, ficou sob minha responsabilidade, manter todos unidos e buscar sempre contato com todos. Mas nada foi feito sozinho, sempre que temos que tomar as grandes decisões nós consultamos todos. As diretrizes principais foram tomadas por mim e pelo Shaw.
BF: Como foi ter gravado uma música produzida pelo falecido DJ Primo? Como era a relação do grupo com ele?Lumbriga: Eu conhecia o Primo há muito tempo. Em 2001, ele colou em mim e pediu para eu conversar com os caras do Quinto para ele entrar na parada. Nisso, a gente gravou um som chamado “Dias de Outono” – Hurakán, eu e scratches do DJ Primo!
No mesmo ano, logo que ele veio para São Paulo, pegou uma MPC2000 e esta base foi,se não a primeira, uma das primeiras que ele fez na máquina. Eu e o Caio, do Elo da Corrente, ouvimos, e ele curtiu a base, então não falei nada. Mas depois o Caio esqueceu e eu não. Uns anos depois, lá para 2005, eu falei com o Primo e ele ainda tinha a batida. Quando fomos escolher as bases foi foda, peguei a caixinha de disquete dele e ouvi todas! Selecionamos quatro, as outras três ainda estão comigo, vamos dar bom uso a elas.
A relação do grupo na verdade era muito pouca, eu era o que tinha mais contato com ele, e era quase nenhum ultimamente, devido aos corres em que ele estava envolvido. O Kamau era o que estava mais envolvido com ele, já que o Primo gravou os riscos do Non Ducor Duco e era o DJ do Kamau.
BF: O encarte tem todo um trabalho gráfico. Qual foi a idéia que vocês quiseram passar nesta parte do álbum?Lumbriga: Quando você pega um vinil, em muitos deles metade das coisas que você sente estão relacionadas à capa. Para mim, é tão importante quanto a música. E foi esse o valor que demos à capa do álbum.
A escada em forma de S foi idéia de um amigo meu, o Lelei, que foi muito importante no nosso processo de criação. É como se estivéssemos no subsolo: a portinha pequena que tem na capa é a mesma que tem grande quando a capa está aberta. É como se você estivesse lá dentro. Ao mesmo tempo, tem um lance de loop, como se a entrada e a saída fossem o Subsolo.
Ainda tem algumas ilustrações das próprias músicas, como a do velho na poltrona – “Ninguém Ama os Náufragos” -, a “Papo de Futuro”, “Cidade de Mentiras”, etc. Demorou um ano e meio para a capa ficar pronta! E acho que esse tempo de amadurecimento das coisas é muito importante. O artista que fez se chama Mateus Grimm. Ele é de Porto Alegre e eu ainda nem o conheço pessoalmente. Procurei até achar alguém que tivesse em seu trabalho o tpo de coisa que eu estava procurando, então, quando achei, já tínhamos meio caminho andado. Eu mandava as idéias para ele, que me mandava os desenhos.
BF: O encarte não contém todas as letras, apenas seis. Por que a decisão de não colocar todas, e por que estas seis foram escolhidas dentre as outras?Lumbriga: Foram só seis porque fazer o encarte com mais folhas ia deixar o disco ainda mais caro (risos). Colocamos aquelas porque são as mais complexas, as que tinham que estar lá. Achamos que as pessoas iam gostar de ter essas, as outras eles estão escrevendo no Orkut, fiquei muito feliz quando vi lá, mano. Tanto que eu até corrijo as que estão erradas. É da hora!
Por fim, queria agradecer várias pessoas que não pude agradecer no disco:
Aos nossos pais por ter nos dado suporte pra chegar até aqui e acreditarem numa coisa que nem sabem o que é.
Aos verdadeiros e poucos amigos, que estão conosco nessa. Os caras do Elo da Corrente, a Carla Arakaki, o Rodrigo Brandão, o Lelei, o Mateus Grimm, o DJ Mako, que chegou na finaleira do disco e deu força necessária até seu término, todas as pessoas que escutam e passam adiante, obrigado por abrirem os ouvidos pra nossa musica!
A minha mulher, Natalia!
E a Deus que a cada vento que bate na minha cara prova sua existência e mostra ser o único caminho!
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