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Bocada - Forte ::: Entrevistas

Som e atitude com Daganja

Data: 03/11/2008

Capa disco
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Daganja
Num cenário onde os artistas estão contando as perdas, Rap do MC Daganja indica uma direção

Dia 23 de outubro de 2008, calor de quinta-feira. Passo de busão em frente ao shopping Interlagos. 152 mil metros quadrados formam o conglomerado de lojas construído no final dos anos 80, na zona sul de São Paulo, perto de uma favela que abriga muitos nordestinos, pobres e pretos. Por este motivo, o shopping ganhou o preconceituoso apelido de “Coquinho”. Uma pessoa no busão liga seu celular, uma música ridícula começa a invadir o ônibus. Pro meu imediato socorro, ligo meu player, coloco o fone e ouço as rimas de Daganja. O nordeste volta pra minha mente, desta vez, pra destruir preconceitos.

Fruto da mistura entre a legitimidade das rimas politizadas com o sangue novo que a nova escola trouxe para o Rap Nacional, desde 1997, “Entre Versos e Prosas”, o primeiro disco solo do MC Daganja, é um panorama do trabalho que é feito pelos artistas das ruas da Bahia, desde a escolha de um sample, até o projeto gráfico.

Letras simples, mas elaboradas cuidadosamente, mostram a urbanidade pela lente do guerreiro. Daganja sabe, precisa ser forte e malandro.  A produção de - DJ Leandro, Armeng e Finado - é terreno seguro para o MC distribuir suas idéias num flow bem brasileiro e nada forçado.

O som é cru, sem as firulas do R&B meloso das FMs. Um CD com influência do samba, do reggae e do dub. Um time de colaboradores formam a linha de frente de “Entre Versos e Prosas”: Léo Sousa, Fall, Sereno, Freeza, Dimak, entre outros MCs e beatmakers que colocam o Nordeste na cena Rap brasileira, mostrando a força local num estilo de música que tem em seu DNA a face rebelde da globalização. Jovens utilizam PCs , microfones e toca-discos, produzidos por empresas multinacionais, como símbolo de resistência.

O Rap norte-americano é a referência principal. O som vem de lá (EUA), é assimilado de maneiras diferentes, em cada parte do país. “Entre Versos e Prosas” registra uma das formas criativas do Rap baiano. Algo mais está por vir? Espero que sim.

Num cenário, onde os artistas estão contando as perdas, o MC Daganja indica uma direção. O Rap agradece.

Bocada Forte (BF): A letras deste CD nos fazem imaginar que há um artista maduro rimando. Há quanto tempo você está no Rap?

Daganja:
Em 1997 tive meu primeiro contato com o Rap escutando algumas coisas como Sistema Negro e Racionais MCs. Comecei mesmo a fazer Rap em meados de 1999. Já passei por alguns grupos. Faço parte da família Afrogueto, mas venho desenvolvendo o trabalho desde disco há 10 meses.

BF: Como é a cena Hip-Hop/Rap aí na Bahia e como está o mercado de shows, rádios, sites, revistas, premiações como um todo?

Daganja:
A cena aqui já se movimenta, pelo que sei, há mais ou menos 15 anos. Hoje já existem programas de rádio, que são de Rap, e programas de outros estilos musicais que também tocam Rap. Com essa parada da Internet, a rapaziada já consegue expandir mais seus trabalhos. Outras pessoas em outros estados podem conhecer shows, que rolam, geralmente, por conta das alianças de alguns grupos. Tudo feito com corre da própria rapaziada. Algumas organizadas outras desorganizadas, acho que o processo de amadurecimento vem sendo natural para o crescimento e profissionalização da cena.

BF: Vários artistas falam que fazem o verdadeiro Rap. O que é o verdadeiro Rap pra você?

Daganja:
Todos falam que fazem o verdadeiro Rap porque todo mundo se acha verdadeiro. Ninguém vai se julgar falso. Se o cara fala a real da vida dele, seja ela qual for, se ele consegue passar o sentimento, o momento que ele esta vivendo, seja ele qual for, pra ele aquilo é a verdade. Ele esta fazendo um Rap verdadeiro, sim. É o que ele acredita. Não sei se faço o dito Rap verdadeiro, mas sei o que quero e quais são as minhas verdades.

BF: Fale um pouco sobre o processo de composição, produção e das colaborações de “Entre Versos e Prosas”. Você aborda o preconceito racial e a formação do povo brasileiro. O que é ser um jovem negro e nordestino no Brasil?

Daganja:
O disco foi todo feito junto com os meus amigos, com as pessoas que eu ando no meu dia a dia. Tem produção do DJ Leandro e do Armeng , que é um MC e produtor local. Ambos trabalharam nas gravações no Studio Freendosoul Rec. Tem produção de Finado, um respeitado MC e produtor do grupo “In.Vés”, que também mixou e masterizou o disco, no Coro de Rato Studios. E tem uma produção do Ghost Killer, um parceiro lá de Cabo Verde, que hoje vive em Portugal. Na rima, o álbum conta com participações do Léo Souza e Oz (Afrogueto), Joca (In.Vés), Fall e Sereno (Loquaz), Freeza (OQuadro), Dimak, e Victor Duarte (um cubano do grupo KGB Squad). A fotos e arte gráfica em geral ficaram por conta de Rangell (Blequimobiu), que também dirije o selo pelo qual o disco foi lançado, o Positivoz. As letras são inspiradas em minha vida, nos meus momentos de idas e vindas, na minha busca de um equilíbrio para viver num mundo de conflito espiritual, político e racial. Só pelo fato de ser nordestino já há um preconceito fodido. Imagine: nordestino e negro, hein rapaz?! Mas tem que ter pé no chão como ser humano. Saber que mesmo sem ter oportunidade fácil, por conta de alguma discriminação, seja ela qual for, podemos conquistar o que quisermos, se nos sentirmos capazes.

BF: Como você vê a juventude das várias periferias do país?

Daganja:
Todo mundo já sabe que periferia em qualquer lugar é igual. São os mesmos problemas. Constantemente vemos em jornais jovens, quase sempre de periferia, sendo presos ou mortos. Vejo que não tem muita opção onde a educação é escassa. Não tem como um cara que se formou no segundo grau do colegial, através de uma vídeoaula por semana, competir num mercado com um cara que fez mestrado ou doutorado de qualquer coisa aí.  Quem sou eu diante os grandes pensadores que mandam no país para saber a solução para essas coisas? Mas vejo que os jovens buscam conquistar seus sonhos e objetivos, não importa como. As vezes, numa universidade, as vezes na música, no futebol e muitas vezes na prostituição, nos assaltos e no tráfico.

BF: Quando o grupo Costa a Costa (CE) concedeu entrevista polêmica ao site Bocada Forte e foi criticado por suas respostas, muitos leitores e artistas afirmaram que isso aconteceu por preconceito contra os nordestinos. O que você acha disso?

Daganja:
O preconceito contra os nordestinos é bastante claro, até nas piadas como “baianinho” ou “baianada”, quando alguém vacila. Até mesmo na categoria do maior prêmio de Rap da América Latina, que é a categoria norte-nordeste. Em diversas partes do norte e do nordeste, existem vários grupos tão bons quanto aos colocados como destaques no país. O Costa a Costa é um grupo bom, atual pra caralho. Boas músicas, boas levadas. Sabem seu potencial. Não sei se sentiram descriminados por serem nordestinos. Pelo que vejo nas músicas os caras tem bastante orgulho disso, assim como eu e outros amigos por aqui, que sabemos do nosso potencial. A liberdade de expressão existe principalmente no Rap, afinal falamos disso não é? Então as pessoas podem expor suas opiniões, independente do jeito que soe pra muitos. Do mesmo jeito que existe os “baianinhos” e as “baianadas”.

BF: Na capa do seu CD, você, um rapper fruto da tecnologia, aparece de papel e caneta na mão, modo tradicional de compor Rap. Qual sua opinião sobre as influências das novas tecnologias, na vida dos artistas e na vida dos jovens da periferia?

Daganja:
A história do papel e caneta na mão é a raiz. É como eu escrevo minhas letras, como foi feito o disco, entre vários versos rabiscados no papel. Hoje, temos mais facilidade para mantermos contato com mundo. O cara tem um PC, umas caixas de som, instala um programa de áudio e faz suas bases e gravações em casa mesmo. Pode fazer com que diversas partes do mundo conheçam seu trabalho. A tecnologia também faz com que o músico não fique dependo de uma gravadora para expandir sua música. Hoje, vejo gritos de independência musical em vários cantos do mundo, devido o avanço e a chegada da tecnologia para os menos favorecidos.

BF: Existem mais efeitos positivos do que negativos?

Daganja:
Na minha visão, existe mais efeito positivo. Desde que, quando o que for raiz não deixe de ser raiz, mas adapte sua cultura e seu conhecimento a essa outra cultura. Pois até hoje ainda venho desenvolvendo meu trabalho dessa forma e, pra min, vem acontecendo um efeito bastante positivo.

BF: Voltando a falar de música. Como são suas apresentações?

Daganja:
Na apresentação eu conto com dois DJs, que são o Leandro e Índio. Nos vocais me acompanham o Léo Souza, mais conhecido como o Soulman do Gueto, e o Joça, que é um MC do grupo In.Vés, além de alguns MCs amigos que participam de algumas músicas. Aqui em Salvador vem sendo muito gratificante o reconhecimento, pois as minhas apresentações aqui não estão se resumindo em mais um show de Rap. É um encontro entre vários amigos que trocam energia positiva, cultura e experiência.

BF: Você pretende fazer shows em diversas partes do país?

Daganja:
Cara, eu ainda não vivo do Rap, mas vivo o Rap. Eu vivo a música, saca? Trabalho isso em min todos os dias e em todos os momentos. Venho conhecendo pessoas em outros estados e fazendo contatos com essa intenção. Quero poder levar minha música aos quatro cantos, não só do país mais do mundo. Neste mês de novembro, irei para o Rio de Janeiro. Tem um show marcado para o dia 27 de novembro, na Batalha do Conhecimento, que é um contato do meu parceiro Blequimobiu com o Marechal. No dia 29 de novembro, tem outro na quadra da Providência, onde vai ser um show com uns grupos locais. O foda é que não tem patrocínio nenhum. É tudo feito com nossa própria correria, pois, como falei, a idéia é rodar os quatro cantos do mundo mesmo. Vou aproveitar o espaço da pergunta para dizer que estou aí para trabalhar. Quem estiver interessado em conhecer mais ou até fazer um show com o Daganja em sua cidade, é só mandar um E-mail para mcdaganja@gmail.com ou ligar no (0xx71) 8735-5139 ou 8877-0274.

BF: Quais suas principais influências na música e na política?

Daganja:
Eu cresci com meus pais ouvindo Roberto Carlos e Erasmo Carlos, samba, música sertaneja, lambada. É muita onda em minha casa até hoje. Eu já vim do samba-reggae, do sambão de esquina. Se a música soa bem pra min, com o respeito devido que a música deve ter, eu curto, saca? Seja rock, reggae, samba etc. Ultimamente eu venho escutando muita música que não é Rap, tipo Arlindo cruz, Leandro Sapucahy, Lecy Brandão, Célia cruz. Gosto da Maria Rita. Até sampleei. Curto Alceu Valença, Lenine, Paula Lima, Seu Jorge, Os Baianos Lazzo Matumbi, Peu Meuray e Magary e mais algumas coisas. Mas esses são o que me influenciam no momento.

BF: Sem rodeios, o que você acha das letras pornográficas de alguns artistas do funk carioca?

Daganja:
A pornografia acompanha não só o funk carioca, como a música em geral. Tem pornografia no pagode, no axé, no funk, no Rap. Aqui em Salvador existe até um estilo chamado de “arrocha”. Acho que a pornografia não soma em nada produtivo com a música. Mais funk é funk e Rap é Rap. Não saco legal sobre a historia do funk carioca, nem sei o porque da pornografia. Por isso, acho que não posso questionar o cara se ele quer cantar pornografia. Acho que cada um cuida do seu terreno e o respeito prevalece.

BF: O dinheiro justifica qualquer atitude na vida de um artista?

Daganja:
Acho que não, mas cada pessoa tem uma necessidade diferente. É legal quando o dinheiro vem de forma honesta, sendo fruto de um trabalho positivo e original. Sendo diferente de quando se tem tal atitude porque vai te trazer dinheiro e não se lembra mais de quem é, nem sua raízes. O artista fica a mercê das modas de verão que aparecem a cada ano, porque isso vai dar um retorno financeiro bacana.

BF: Pra finalizar, o que você deseja para o futuro do Rap Nacional? Seu CD contribui para alguma mudança na cena?

Daganja:
Desejo que cada um ocupe o seu espaço merecido dentro do seu desenvolvimento com o seu trabalho. Todos os anos vejo pessoas falando que esse vai ser o ano do Rap. Pois eu prefiro ver como o ano de quem trabalha. Se você trabalha, valoriza, acredita e faz valer seus esforços, esse é o seu ano parceiro. Ou seja, trabalhando estarei aí durante vários anos. Sobre o meu CD... Rapaz, sei que minha correria fez muita mudança aqui em Salvador. Vejo como uma conquista para o Rap soterolopolitano, pois temos talento e merecemos, por ter uma música de responsa, uma boa capa, um bom design, uma boa mixagem, uma boa distribuição. É isso. Estamos conquistado.

Valeu a todos! DJ Cortecertu e o Bocada Forte, em especial pelo espaço e nunca esqueçam: Tem que ser guerreiro pra vencer na vida!

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» Myspace: www.myspace.com/mcdaganja
» Fotolog: www.fotolog.com/daganja
» Selo: www.positivoz.com

Contato:
mcdaganja@gmail.com
(0xx71) 8735-5139 (Daganja)
(0xx71) 8877-0274 (Rangell)

Por: DJ Cortecertu



Comentários

Foram localizado(s) 3 comentário(s)


Isso aê daganjaaa,muita qualidade no seu trabalho isso revela o quanto o nordeste tem a mostrar. E o seu trabalho serve de isnpiração~para a galera que esta chegando agora no Rap baiano. Vibraçaões pozitivas man!

Por: Ricky - Em: 21/09/2009 21:29:40


salve daganja voçê ainda tem muito a conquistar otimo cd materia sem palavras que mostra mas um talento no rap brasileiro.LOUVADO SEJA QUE DEUS TE PROTEJA GUERREIRO.

Por: fabiano passos - Em: 07/11/2008 10:07:41


ai vei, sem comentario sabe, eu sou do tipo que escuto alguns cds em cada temporada, e no momento estou escutando, inquerito, e daganja, porra o som do daganja ta bem loko, uma mistura musical bem massa, é bom ter um cara como esse somando e multiplicando no rap nacional, principalmente o rap soteroplitano. gostei do cd do cara e daqui pra frente é bola pra frente. só pra frente é que anda. Mano Marck.

Por: marcelo froes - Em: 05/11/2008 12:14:54



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